segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Lenda mítico-histórica e oral do grupo Lunda-Tchokwe sobre a sua ascendência divina e criação do Universo

Segundo a história tradicional e oral, que o autor ouviu da boca dos mais idosos e categorizados chefes destas duas etnias, tanto os Lundas como os Tutchokwe e todos os povos negros, descenderiam dos Bungus, e estes directamente do Nzambi (Deus supremo da mitologia Tchokwe).
Eis, pois, tal como nos foi contada, a história da criação do Universo e a ascendência divina destes povos.O Nzambi, a quem também chamam Ndala Karitanga (Deus que se criou a si próprio) e Sá Kalunga (Senhor infinitamente grande, Deus supremo e infinito), depois de ter criado o Mundo e tudo quanto nele existe, criou uma mulher para que fosse sua esposa e para que, por seu intermédio pudesse ter descendência humana, a fim de que esta povoasse a Terra e dominasse todos os animais selvagens, por ele também criados. Disse então sua esposa que passaria a chamar-se Ná Kalunga, em virtude de a filha que iria dar à luz, se chamar Kalunga.
Com efeito, tal como o Nzambi tinha anunciado, passados nove meses nasceu sua filha Kalunga. Esta foi crescendo como qualquer criança normal, junto dos seus divinos pais, na tchehunda tcha Nzambi (aldeia de Deus).Logo que sua filha atingiu a puberdade, o Nzambi, seu pai, informou Ná Kalunga, sua esposa, que tencionava fazer uma caçada, durante os três meses da época seca e que, para não ir sozinho, levaria sua filha com ele.
Esta resolução não agradou à divina esposa que tentou opôr-se a que sua filha o acompanhasse. Porém, o Nzambi lembrou-lhe que ela tinha sido por ele criada para lhe obedecer, visto que, além de seu marido, era também seu Deus.
Contrariada, mas impotente para obrigar o esposo a desistir do seu intento, limitou-se a deixar ir a filha com o pai, enquanto ela ficou a chorar amargamente.Logo que chegaram ao local escolhido para a caçada, o Nzambi, instantaneamente, construiu uma palhota, na qual instalou uma só cama.
Ao ver um único leito, a filha do Nzambi recusou-se a dormir com seu pai e saiu a chorar da cabana.Ao ver a recusa da filha e não podendo convencê-la doutra forma, disse-lhe que se não fosse imediatamente para junto dele, seria devorada pelas feras que infestavam a floresta.Transida de medo pelo que acabava de ouvir, Kalunga entrou novamente na cabana, deitou-se junto de seu pai e com ele dormiu não só naquela noite mas durante todo o tempo que durou a caçada.
Finda esta, regressaram a casa e a Ná Kalunga, tal como tinha previsto, verificou que a filha estava grávida do próprio pai. Enraivecida pelo ciúme e pelo desgosto, no meio das maiores blasfémias, enforcou-se numa árvore, perante os olhares atónitos da filha e do marido, que nada fizeram para evitar o suicídio.

Desgostoso pela atitude da mulher, que não quis compreender os seus desígnios para povoar o Mundo que ele tinha criado, mostrando ser indigna de continuar a ser esposa daquele que lhe tinha dado o ser, em vez de lhe dar vida, novamente amaldiçoou-a e transformou-a num espírito maligno, a que deu o nome de Mujimo (designa ventre mas, neste caso, significa o espírito da primeira mãe que existiu na Terra).
A partir dessa altura, o Nzambi passou então a viver maritalmente com sua filha Kalunga, a qual, depois da morte da mãe, passou a chamar-se também Ndala Karitanga e a ser a segunda divindade.
Algum tempo depois da morte de sua mãe, durante um sonho, teve uma visão que a deixou apavorada. Viu a mãe com a cabeça apoiada nas mãos, a olhá-la com rancor e a insultá-la, mordida pelo ciúme que ainda a devorava, enquanto ela, envergonhada, lhe pedia desculpa e lhe dizia que de nada era culpada, visto que seu pai a tal a tinha obrigado. No meio desta aflição acordou e contou ao pai o seu pesadelo. Este sossegou-a, dizendo-lhe que nada receasse daquela que tinha sido sua mãe e que agora era espírito mau, pois que ela nenhum mal lhe poderia fazer, mas apenas lhe pedia comida. Portanto, disse ele, vamos dar-lha.
Levantaram-se ambos e ele fez um pequenino montão de terra, junto da porta da casa, simulando uma sepultura. Disse, então, à filha que fosse buscar carne e outra comida e a pusesse sobre aquela sepultura, proferindo, ao mesmo tempo, as seguintes palavras: Mama ngu n’ezanga ua-ku-ku-rila. Halapuila kanda uiza kuri yami nawa; ny ngu-na-ku mono nawa, ngu n’eza ny ku ku cheha (minha mãe, acabo de vir chorar-te; agora não voltes ter comigo outra vez porque, se volto a ver-te, venho matar-te).
Chegado que foi o tempo, Kalunga deu à luz um filho ao qual seu pai-avô deu, também, o nome de Ndala Karitanga, passando este a ser a terceira divindade.Logo que seu filho-neto cresceu e atingiu a adolescência, o Nzambi ordenou-lhe que casasse com sua mãe Kalunga, para que esta concebesse dele muitos filhos, de ambos os sexos, a fim de povoarem a Terra e dominarem todos os animais.
Cumprindo as ordens do Nzambi, sua filha e seu filho-neto casaram e tiveram um filho e uma filha. Quando estes chegaram à maioridade, o Nzambi ordenou, então, que o primeiro casasse com o pai, dizendo que já não se justificava a primeira união que ele tinha ordenado, informando-os ainda que, depois daquelas uniões, as seguintes se fizessem só entre primos cruzados.Por fim, depois de lhes ter ensinado tudo o que deveriam fazer, para que a sua descendência crescesse e se multiplicasse, para que lutasse contra as doenças e os feitiços que um dos seus descendentes, do sexo feminino, viria a possuir, porque ele lhos legara, o Nzambi despediu-se de todos. Chamando, depois, o seu cão, que sempre o acompanhava, dirigiu-se para a tchana tcha Mweu (planalto do Mweu) e dali subiu para o espaço, levando consigo o cão.
Naquela altura, as rochas estavam moles, por terem sido formadas há pouco tempo. Ainda hoje se podem observar as pegadas esculpidas, numa rocha ali existente, especialmente do pé direito do Nzambi, assim como da pata dianteira do seu cão. Estas pegadas existem também em diversas outras rochas por toda a África, incluindo Angola.

In: Crenças , Adivinhação e Medicina Tradicionais dos Tutchokwe do Nordeste de AngolaAutor: João Vicente Martins;Edição do Inst. de Inv. Ciêntifica Tropical - Lisboa 1993 - CDU 398.3:008.2:615.89:301.185.1(673)

Kua Nzambi bana kibuku ua kioso
(Que Deus dê prosperidade a todos vocês.)
Katumba

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